19 ABR 2016

Precisamos mudar o jeito de fazer política, diz presidente da CNBB

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Embora a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) tenha optado por não se posicionar sobre o impeachment da presidente Dilma Rousseff, seu presidente, dom Sergio da Rocha, arcebispo de Brasília, diz que o país precisa "de um novo jeito de fazer política".

Em entrevista à Folha, durante a 54ª Assembleia Geral da CNBB em Aparecida (SP), ele defendeu uma "profunda" reforma política, com a renovação dos quadros, acabando com o "carreirismo".

"É muito triste que um grupo viva só em função de seus interesses. Um partido que vive em função dele não é está a serviço do país, não está cuidando da coisa pública."

Leia abaixo a entrevista.

Folha ­ A crise política e a polarização instaurou no país um clima de ódio e intolerância. Como a Igreja Católica pode e tem atuado?

Dom Sergio da Rocha ­ Compreendemos que haja diversidade de posturas, mas quando se polariza e se acirra, chegando a conflitos, não ajuda ninguém. Nem o nosso povo, nem aqueles que se manifestam, nem a democracia. Quem pensa diferente não deve ser tratado como inimigo, deve ser tratado com respeito. Não se pode conceber as diferentes manifestações como se fossem torcidas uniformizadas

no estádio. Porque quem está ali, com certeza, está torcendo pelo Brasil. Seja com um posição ou outra.

Precisamos superar essa tendência no campo político a buscar sempre o interesse particular, o interesse partidário, o interesse de uma corporação. Se não cuidar, na rua isso pode ocorrer. Estamos precisando de um novo jeito de fazer política. Não dá para continuar desse jeito.

Na mensagem sobre as eleições 2016, a CNBB defende a reforma política, pregando a renovação dos quadros políticos e até incentivando integrantes da Igreja Católica a disputarem o pleito deste ano.

É preciso que o país siga avante em uma reforma política mais ampla. A temática da reforma política tem que ser pensada para além de um projeto específico, da posição de alguém ou de uma entidade. Não pode ser pensada só pelo Congresso Nacional, tem que também ser pensada pela população.

E o incentivo a candidatura de integrantes da igreja?

Quem não tem posição político­partidária é a Igreja Católica como instituição e o clero, mas os chamados cristãos leigos e leigas têm não só direito, mas dever de uma participação mais efetiva. Se tivéssemos cristãos mais coerentes com a sua fé na política, claro que teríamos uma situação muito melhor.

O documento fala também no fim do carreirismo político.

É muito triste que um grupo viva só em função de seus interesses. Um partido que vive em função dele não é um partido que está a serviço do país, não está cuidando da coisa pública. Está cuidando da coisa particular ou misturando o particular e o público. Não podemos continuar com esse esquema.

Creio que o Congresso Nacional tem uma responsabilidade imensa nesse momento, de reafirmar a ética na política muito concreta, pelas suas posturas e atitudes.

A CNBB optou por não se posicionar sobre o impeachment. O sr. é

cobrado?

As pessoas têm uma tendência a esperar um pouco mais. Entendemos que ir além do que a CNBB tem feito como posição seria de alguma forma adotar uma postura partidária. Não estamos ficando de fora, nos envolvemos além da conta. Temos sido criticados e também reconhecidos pelo diálogo.

Há o temor de que seja retomada a lembrança de 1964, quando a igreja

foi acusada de apoiar o golpe?

Creio que esse modo de conceber se deve primeiro a uma opção que tem sido reafirmada nas últimas décadas, que é a presença da igreja na sociedade, mas sem se misturar com aquilo que é político­partidário.

Quando estamos falando de respeito ao Estado de Direito Democrático e à ordem constitucional, não estamos aqui defendendo e favorecendo partido nenhum, estamos dizendo aqui que é preciso levar a sério a Constituição brasileira, que fora dela a gente não vai conseguir encaminhar as coisas como devem ser.

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