19 MAI 2020

Serretti: impressionava como o Papa Wojty?a seguia Cristo

Massimiliano Menichetti - Cidade do Vaticano

“Um encontro no qual se abriu para mim todo o mistério da paternidade e da filiação”. Dessa forma o adre Massimo Serretti, ordenado sacerdote por João Paulo II, há 25 anos, relembra o santo que abriu para ele caminhos a serem percorridos na própria vida. O padre Massimo é professor de Teologia dogmática na Faculdade de Teologia da Pontifícia Universidade Lateranense, dá aulas de Teologia fundamental no Instituto Superior de Ciências Religiosas  “Italo Mancini” de Urbino e de Antropologia teológica no Instituto Superior de Ciências Religiosas de Ancona. O encontro com aquele que se tornaria o primeiro Papa polonês da história ocorreu no ano de 1976.

O que significou para o senhor conhecer Karol Wojty?a?

"Não é possível para mim, de maneira alguma, relegar no passado o encontro, primeiro com Karol Wojty?a, e depois com João Paulo II. De fato, o encontro entre aqueles que estão ligados “em Cristo” é algo que tem certamente um início histórico circunstancialmente determinado, mas que aprofunda as suas raízes em uma dimensão que o precede e que lança uma dinâmica que a Igreja chama “comunhão dos santos”, e que não tem fim. Portanto aquilo que no encontro aconteceu é suscetível de futuro e incentiva fortemente daqui em diante. Entende-se que aquilo a que faço aqui referência é o mistério da paternidade e da filiação. O pai, doando o que é vital abre por sua vez o filho à vida e, nessa abertura, que tem seu ponto de partida e que não termina nunca, o filho mesmo é lançado em uma aventura nova, permanecendo sempre a pertença à origem. É o contrário do que é suposto na mentalidade comum: quanto mais desligado da origem, mais lançado para frente".

João Paulo II começou o seu Pontificado com as palavras: “Não tenhais medo! Abri, melhor, escancarai as portas a Cristo!”. O senhor definiu São João Paulo II como: “O homem cuja amplitude não se podia abraçar de nenhum algum”. O que lhe impressionava?

Não me impressionava nada, mas me fascinava tudo. É um índice seguro de verdade o fato que em toda a história da salvação dos “grandes”, de Abraão, de Davi, de Moisés, dos Apóstolos, sejam narrados não somente as admiráveis gestas, mas também as mesquinharias, as debilidades. Desta forma a sua grandeza é apresentada como algo que os transcende. Eles são levados para além de si mesmos e, em todo seu ser e existir concreto, são feitos sinal de Alguém que as define, que passa também através deles, mas que não coincide com eles mesmos.

O Senhor insere dentro do seu povo essa grandeza para que nele tenha um prosseguimento. Diante desse homem (Wojty?a, João Paulo II) era claro que segui-lo significava seguir Cristo. Então a resposta à pergunta inicial é agora modificada: o que impressionava era como esse homem seguia Cristo.

Também pelos efeitos do seguimento pode se ver a diferença: os que seguem um chefe se tornam todos iguais, os que seguem Cristo se tornam todos diferentes.

O pontificato de João Paulo II começou no dia 16 de outubro de 1978 e durou 26 anos, 5 meses e 17 dias. Foi definido como o Papa dos jovens, da família, derrubou muros e barreiras, promotor do diálogo entre as religiões e as culturas. E, sobretudo, o homem. Que significado tinha para ele essa palavra?

Aqui é tocado um dos centros gravitacionais de todo o pontificado, de todo seu ensinamento, de toda a pessoa de João Paulo II. Ele se distingue por como olha, por como entende, por como diz “homem”. Nisto ele é verdadeiramente discípulo de Paulo VI, que encerra o Vaticano II com uma declaração sobre a superioridade do humanismo cristão sobre qualquer outro humanismo. Depois que o Pai se mostrou antropocêntrico pedindo ao seu Unigênito Filho que se fizesse homem, o homem, a fidelidade ao homem, a todo o homem e a todos os homens, não somente não contrastam e não rivalizam com o teocentrismo, mas se tornam coessenciais a ele. João Paulo II cancelou definitivamente a presumida antinomia entre a afirmação do homem e a afirmação de Deus.

Uma das pérolas do pontificado de João Paulo II é o martírio do jovem sacerdote de Varsóvia Jerzy Popie?uszko no dia 19 de outubro de 1984. Poucas horas antes de ser barbaramente trucidado, em uma meditação pública sobre os mistérios dolorosos do rosário, ele se expressou da seguinte maneira: “Hoje é necessário falar muito da dignidade do homem para tornar-nos conscientes de que o homem supera tudo quanto existe no mundo, a exceção de Deus; supera a sabedoria do mundo inteiro. Salvaguardar a dignidade para poder tornar maior o bem e vencer o mal -significa permanecer inteiramente livre também das condições de escravidão exterior, permanecer fiel a si mesmo em todas as situações da vida. Como filhos de Deus não podemos ser escravos. A nossa filiação a Deus carrega consigo o patrimônio da liberdade, a liberdade dada ao homem como medida da sua grandeza”. A dignidade, a dignidade do homem é o que emana do rosto, da palavra, da história de João Paulo II. E a dignidade é dada pelo fato que na vida há algo que é maior que a própria vida, pelo qual vale a pena entregar a própria vida. Uma vida na qual não esteja presente alguma coisa maior que a própria vida perde a sua dignidade.

No dia 13 de maio de 1981, dia no qual a Igreja celebra a memória de Nossa Senhora de Fátima, Mehmet Ali Agca alveja o Papa. Onde o senhor estava e como viveu esses dias?

Na Itália acontecia um referendum sobre a lei 194 (aborto) e se passavam os dias precedentes à votação passando de casa em casa, de porta em porta para apresentar os argumentos para a defesa da vida, da vida do homem. A notícia nos alcançou enquanto nos dedicávamos a essa tentativa extrema. João Paulo II nesses dias e na semana precedente tinha denunciado publicamente duas coisas: a primeira era o engano da consciência que com uma lei semelhante se perpetrava, não chamando mais as coisas pelo seu nome. De fato, a eliminação de uma pessoa era chamada “interrupção voluntária da gravidez”. O escurecimento sistemático e metódico da consciência tinha sido claramente denunciado pelo Pontífice como um delito inclusive mais grave que aquele do assassinato mesmo. A segunda dizia respeito aos fundamentos do direito. A vida, o direito à vida é o fundamento de todos os demais direitos, enquanto afirma o sujeito pessoal mesmo de qualquer outro direito. Minando este direito basilar, seria posta uma péssima premissa para a violação também dos outros direitos. Não somente isso, mas quem fosse feito politicamente responsável de um atentado do tipo, em matéria tão relevante, não poderia ser mais considerado confiável em questões sociopolíticas de menos relevância.

Foi bem em meio a este contexto que o terrorista turco tentou assassinar o sucessor de Pedro com um calibre nove. Todos hoje sabem que nessa audiência João Paulo II iria anunciar a fundação de um instituto de estudos da família.

Naquele mesmo pedaço de terra no qual Pedro, o pescador da Galileia, tinha feito o seu extremo testemunho de Jesus Cristo, a João Paulo II lhe foi permitido derramar o próprio sangue no exercício do mesmo ministério, e do mesmo testemunho. 

Os últimos anos do pontificado foram de sofrimento e amplificaram ainda mais o testemunho, o anúncio cristão. O que mais impressionou quanto tornou à Casa do Pai, no dia 2 de abril de 2005, eram as multidões que lhe prestaram homenagem, praticamente todos tinham alguma lembrança, uma história compartilhada com ele...

Enquanto os grandes deste mundo escondem o seu sofrimento e a sua morte, João Paulo II não se retirou para esconder ou privatizar. Pelo contrário, a sua paixão e a sua morte se tornaram um evento público de alcance mundial. Isto é tipicamente cristão. Um dos pontos que faz com que o cristianismo seja particularmente crível e singular é justamente o da morte. “Em Cristo”, e fato, “àqueles que lhe pertencem” é dado não só viver de um outro modo, mas também viver o sofrimento e a morte de uma maneira desconhecida para o mundo. Na sua memorável homilia no campo de Brezinka (vizinho a Auschwitz), João Paulo II, meditando sobre o martírio de Maximiliano Kolbe evidenciou que ele não tinha “morrido”, mas tinha feito um dom da sua vida, transfigurando assim, já desde agora “o último inimigo”. A sabedoria ligada à experiência da proximidade à morte João Paulo II a ofereceu notoriamente à Igreja e a todos os homens na carta Salvifici doloris.

Nos últimos dias de março, desde o início de abril de 2005, as crianças se reuniram e expressaram muito bem o que estava acontecendo com os seus desenhos e os seus pensamentos.

O fato de que o cristão se reconhece não só pelo modo de viver, mas também pelo seu morrer, é de particular atualidade nestes meses nos quais o ambiente de morte tem se apoderado do cenário mundial, deixando a todos atônitos. Tornou-se luminosamente em evidente a morte cristã.

O Papa Francisco escreveu que São João Paulo II “viveu completamente imerso no seu tempo e constantemente em contato com Deus”, e que tem sido “um guia seguro para a Igreja em tempos de grandes mudanças”. Como se encarna hoje a sua herança?

O primeiro herdeiro é o filho. Quem teve a Graça de estar na irradiação da paternidade de um tal Padre (e são tantos), sempre e quando não a esquecer e não a trair, pode, por sua vez, gerar e carregar fruto.

A imersão, a imanência no tempo, no próprio tempo, à qual se refere o Papa Francisco, como aspecto necessário do nexo com a eternidade de Deus é um indicador do método de grande relevo para o que estamos vivendo agora.

Uma “praga”, um “flagelo”, tem se precipitado sobre o mundo com violência. A partir do sentido aguçado da história, da teologia da história, que caracterizava a João Paulo II, vêm a mente as perguntas de Jesus: “Quando vedes levantar-se uma nuvem no poente, logo dizeis: ‘Vem chuva’, e assim acontece. E quando sopra o vento do sul, dizeis: ‘Fará calor’, e isso sucede. Hipócritas, sabeis discernir o aspecto da terra e do céu; por que não discernis o tempo presente?” (Lc 12,54ss), “o aspecto do céu, sabeis interpretar, mas os sinais dos tempos, não sois capazes!” (Mt 16,3).

Tradução ao português: Martín Ugarteche.

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